Maria Pereira, 1859: Abusos de Autoridade e Injustiça

Data: 16 de agosto de 1859

Caro amigo,

Desta vez não posso relatar tudo que aconteceu neste termo, mencionarei apenas alguns casos urgentes, para que V. Exa., o Sr. Presidente, conhecendo melhor seus agentes aqui, possa tomar providências imediatas. Não se trata de assuntos eleitorais ou de cargos, mas da liberdade de um cidadão.

O homem chamado Domingos, de quem já lhe falei, foi escravizado pelo juiz Augusto e pelo escrivão Rodrigo. Ele havia recorrido à Presidência por tamanha injustiça, e esta reconheceu seu direito, determinando que o juiz de direito da comarca fizesse justiça, recomendando que Domingos não fosse preso antes de ter seu direito garantido. No entanto, ao retornar do Tauá, Domingos foi entregue aos caixeiros da Casa Caminhas, por mil e quinhentos réis. Infelizmente, assim o queriam o juiz Augusto e seu escrivão.

Recentemente, uma pobre senhora foi atacada com uma machadada na cabeça e encontra-se à beira da morte. Nenhum processo foi aberto, e a autoridade do Sr. Rodrigo basta para encobrir tais crimes.

Um idoso, passeando pela fazenda Caiçara, foi quase morto por sobrinhos do Sr. Rodrigo com golpes ainda se encontra em estado grave.

A facada desferida por Joana Quati, supostamente a mando do juiz Augusto e com intervenção da presidência ou do chefe de polícia, até hoje não teve processo instaurado.

As agressões físicas contra Manoel José, cometidas pelo mesmo Augusto dentro da vila, também permanecem impunes. A surra sofrida por uma mulher em Pedra Branca, cujo marido faleceu durante o período de resguardo, já nem se menciona mais.

Estamos há mais de um mês sem professor. O Sr. Araripe, que interinamente assumia a cadeira e desempenhava suas funções com zelo, foi substituído por outro que, ao chegar, retirou-se no dia seguinte e até hoje não se tem notícias. Dizem que o Sr. Araripe se preparava para o concurso da cadeira e certamente teria sido aprovado se não fosse pelo impedimento arbitrário.

O Sr. Targino já recebeu algumas moedas espanholas não sei se em troca da prescrição que lhe prometeram ou por ter se envolvido em um negócio de uma burra aqui; informarei ao senhor assim que souber ao certo.

O delegado Augusto já mandou alugar casa em Pedra Branca, e tanto ele quanto o escrivão Rodrigo já residem lá. Para obter uma procuração, exige-se a apresentação de cinco bagos, sob pretexto de aguardar as últimas ordens da honrada salinha, já que a vila seria transferida para lá.

O Dr. Juiz de Direito da comarca passou por aqui, e posso garantir que o Tauá está satisfeito. É um jovem honrado, ilustrado e possuidor de alguma fortuna. Não se compara a Careteiro Rocha, que, além de inúmeros problemas que o perseguiam, não possuía sequer uma rede para deitar.

Fonte: O Cearense, edição nº 1259, ano de 1859.






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