Pedra Branca em 1856: O Vigário Sarmento e a Política da Injustiça
Maria Pereira, dezembro de 1856
Os habitantes deste município de Maria Pereira, especialmente os da povoação de Pedra Branca, sofrem contínuas perseguições, injustiças, ameaças e terrores, que pouco falta para desesperar o povo infeliz, só por não acompanharem o reverendo vigário Sarmento em seus delírios e desatinos, e, por conseguinte, aos seus escravos, que já se julgam vitalícios nos empregos.
Há poucos dias tomou posse o grande delegado João Alves de Carvalho Gavião, que, por ser um dos prediletos do padre Sarmento e privilegiado da botica, não encontrou obstáculo ou incapacidade para ser nomeado delegado, apesar de já ter consumido processos como foi provado sendo ele mesmo delegado, e, ainda assim, absolvido do crime pelas indulgências do Sr. Dr. Juiz de Direito Jaguaribe!
E, nesta fé, continua a apoiar criminosos de morte pública e escandalosamente, como se viu no dia 15 do corrente mês, na vila de Maria Pereira, quando passou um tal José Barbado, conhecido aqui por Ângelo, em tempo em que se achava reunido o júri, além de José Gomes, criminoso na Telha, que está com o delegado trabalhando em um açude, e José Alves, criminoso de morte, acostado aos valentões Bahia e Quixaba, sem o menor receio, pois têm todo o apoio das autoridades, ou antes, do vigário de Maria Pereira, que ainda os aguarda para as eleições vindouras.
Mas nem mesmo tais fatos parecem bastar para que o Sr. Presidente o demita, visto que semelhantes ocorrências têm sido praticadas também pelo subdelegado de Pedra Branca, pelos quais, em vez de punição, tem antes merecido maior conceito do governo, razão pela qual é mantido no cargo.
Recentemente, o mesmo subdelegado pronunciou um miserável rapaz sem a menor prova no processo, apenas pela queixa injusta de outro, para satisfazer ao queixoso, seu protegido. E, apelando aquele da sentença para o juiz de direito, este condenou o queixoso e remeteu o processo à mesma subdelegacia, mas, porque vinha contra o afilhado do subdelegado, o processo simplesmente não aparece. Estas são as menores arbitrariedades cometidas nos empregos subordinados ao Sr. Padre Sarmento.
Consta, ainda, que se teria reunido a câmara para informação das eleições secretas de câmara e juízes de paz, convocada pelo padre Sarmento. No entanto, não houve quem testemunhasse tal reunião, pois, residindo na vila de Maria Pereira, os vereadores Matos Antonio Claudio de Almeida, Francisco Aderaldo de Aquino e José Gonçalves de Carvalho além de outras pessoas de fé declararam ignorar a existência de semelhante câmara. Disseram que foram chamados apenas para assinarem os suplentes João Francisco de Melo Brasil e José de Araújo Frazão, moradores distantes dez léguas da vila, e que sequer assistiram às eleições.
Não sei que haja maior descaramento! E é tal a desgraça de Maria Pereira que, do mais alto dos empregados ao mais ínfimo, tudo é corrupção e miséria. O fiscal, por exemplo: um rapaz pobre, alfaiate sem eira nem beira, que chegou a Maria Pereira como peregrino, foi o escolhido pela câmara, ou melhor, pelo vigário Sarmento, para o cargo de fiscal. A razão é simples: haveria de se amoldar às suas traficâncias. E, de fato, tem desempenhado à risca as terminantes ordens da câmara de Maria Pereira, satisfazendo plenamente ao vigário Sarmento, protótipo de toda essa comitiva.
Fonte: O Cearense, edição 00985, ano de 1856.
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